Carta à MTV de Vera Alves
O post hoje é dedicado a apoiar a iniciativa de uma mãe que escreveu uma carta à MTV em protesto ao programa "Casa dos Autistas".
Para quem não está sabendo a respeito, consulte o link: http://www.equipenovoolhar.org/blog/peti-o-p-blica-programa-casa-dos-autistas-mtv
A carta é de Vera Alves, mãe da Júlia..
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A minha mensagem à MTV:
Aos idealizadores, produtores, intérpretes e anunciantes do triste quadro “Casa dos Autistas”:
Em primeiro lugar, gostaria de reconhecer o quão perto vocês chegaram no retrato da vida de pessoas autistas, notadamente os mais severos. Muito menos pelo texto, que caracteriza essa vida como “pouco interessante”, mas muito mais pelas imagens, essas sim, que mostram isolamento, medo, estereotipias, comportamentos obsessivos e repetitivos, sofrimento. Vocês se esqueceram de incluir nesse rol os comportamentos auto lesivos.
Como mãe de uma linda adolescente autista de 14 anos, a Júlia, devo dizer que pode também haver momentos de sorrisos, de olhares, de abraços e até de palavras.
Pelo fato mesmo de conviver há muitos anos com pessoas portadoras de deficiências mentais (tenho também um irmão portador de Síndrome de Down), fica muito fácil para mim reconhecer quando estou diante de pessoas portadoras desse tipo de deficiência.
A minha mensagem é no sentido de alertar os anunciantes e diretores da emissora MTV que se trata exatamente disso: as pessoas envolvidas na idealização e produção desse quadro, não são em nada diferentes, tecnicamente falando, das pessoas que eles retrataram de forma desrespeitosa e indigna.
Observando o conteúdo do programa, cheguei à conclusão de que não pode se tratar apenas de pessoas de mau gosto, grosseiras, maldosas, etc., simplesmente pelo fato de que este nível de falta de noção de ética requer um considerável grau de retardo mental (ainda tecnicamente falando).
De qualquer forma, como militante da educação inclusiva em todos os seus aspectos – direito pelo qual temos que lutar dia e noite para nossos filhos, gostaria de registrar minha contribuição para a educação dessas pessoas portadoras de séria deficiência intelectual, apresentando às mesmas os basics da ética na profissão de humorista:
1. Há um grupo de potenciais alvos de piadas, sobre os quais e para os quais vale fazer piada sempre. Exemplo típico: políticos corruptos. E por que isso? Porque eles tinham - e têm – escolha: eles poderiam ser diferentes.
2. Há um grupo, ao qual darei o nome genérico de vítimas, sobre o qual e para o qual não se deve fazer piada nunca. E por que isso? Porque eles não tiveram escolha. Esse grupo inclui crianças e pessoas portadoras de todo e qualquer tipo de deficiência física ou mental, as vítimas de Realengo, os habitantes do noroeste do Japão, as pessoas soterradas pelos deslizamentos, as pessoas com doenças terminais, os civis mortos na Líbia ou em qualquer outra guerra.
Esta regra deve prevalecer para além da tentação de usar trocadilhos que, para mentes tão deficientes, podem parecer brilhantes (artistas/autistas). Tenho certeza de que as palavras listadas a seguir, poderiam ser matéria prima para tantos outros trocadilhos fáceis, o que não os tornaria menos rasteiros/rasos: cadeirante, psicótico, esquizofrênico, tetraplégico, cego, surdo, mudo, soterrado, amputado, agonizante, obeso mórbido, paralisado cerebral, down.
Por último, não defendo a saída dessas pessoas da MTV, pois como dito acima, defendo a inclusão na sociedade de pessoas portadoras de todo e qualquer nível de deficiência. Apenas acho que seria de bom tom que a direção da emissora e seus anunciantes revisassem o conteúdo dos programas por elas produzidos, até como medida de mitigação de riscos legais a que a emissora possa estar se expondo. O acompanhamento terapêutico é ferramenta básica em qualquer trabalho de inclusão.
Vera Alves
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